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Entrevistamos Latrice Royale e Milk Queen e descobrimos porque elas tem tanto em comum

Entrevistamos Latrice Royale e Milk Queen e descobrimos porque elas tem tanto em comum

 

RuPaul Andre Charles não nasceu – se inventou. De Club Kid a Super Model of the World, o artista apresentou aos lares americanos (e agora do mundo) uma família excêntrica, onde gêneros se misturam e a realidade é ainda mais fantástica que a ficção. RuPaul’s Drag Race criou um panteão de deuses.

Imperfeitos, disfuncionais e muitas vezes hostis, as drags que passaram pelas mãos de Mamma Ru hoje são celebridades. Brincando no limiar entre o masculino e feminino, a arte e o kitsch, todas levam consigo uma legião de fãs que a cada temporada se identificam com suas histórias e personas. Mas apenas vê-las na TV não é mais suficiente.

O “Olimpo” de Ru está cada vez mais próximo de nós, mortais. Já em sua sétima temporada, Rupaul’s Drag Race garante a todas as Queens que passaram pelo programa um espaço garantido em clubes e casas de shows ao redor do mundo todo – e não seria diferente no Brasil.

Em sua passagem por diversas cidades brasileiras, entrevistamos duas dessas “Rainhas”. Latrice e Milk, a primeira vista, poderiam ser personagens antagônicas. Cada qual a sua maneira, suas vidas e performances refletem duas pessoas sensíveis, sem medo de mostrar o que se esconde por baixo da maquiagem.

 

 

Glued: Vocês tem gostado do Brasil?

Milk: Sim! Não… todo mundo é simplesmente terrível. (Brincando)

Latrice: Não temos fãs aqui! (Brincando)

Milk: Tem sido simplesmente maravilhoso. Realmente maravilhoso.

Feat

Glued: De uma certa maneira, vocês duas eram as ovelhas negras do show, correto? Você, Latrice, uma das Big Girls, como sempre dizia Large and in Charge e você, Milk, a queen que não se contentava em seguir conceitos de beleza tradicionais. Como era ser tão diferente das outras competidoras?

Milk: Como era ser diferente? Bem… Drag Race é sobre se destacar e divulgar sua própria imagem, além de descobrir quem você realmente é. Quando eu estava no show, cinco temporadas anteriores já haviam passado, e para mim era extremamente importante ser única e realmente me diferenciar de qualquer concorrente na história do programa. Isso era importante para mim. Eu provavelmente poderia ter feito mais coisas que os juízes haviam me pedido, mas eu preferia mostrar minha personalidade, porque isso é o que se torna memorável. Porque isso é o que eu faço nos “clubes” e o que os meus fãs esperam que eu faça. Eu amo ser diferente. Eu prefiro ser um estranha do que ser como todo mundo.

Glued: E você Latrice?

Latrice: Graças ao programa eu sinto que eu evoluí muito como Drag e alcancei um outro nível. Isso sempre foi meu sonho. Eu sempre soube o que eu queira fazer e o que eu imaginava para Latrice, mas eu não sabia como alcançar minhas metas. E Drag Race apareceu. Assisti as primeiras três temporadas, e li sobre todas as garotas e finalmente quando vieram à minha cidade, eu pude ver como esta oportunidade transforma vidas. Eu achei que era hora de mudar e resolvi fazer o teste e passei de primeira. Foi maravilhoso.

 

Latrice

Glued: Voltando ao tema de que como ser diferente é importante, você quebrou todas os paradigmas, Milk. Quando todas usavam um vestido de lantejoulas ao representar RuPaul, você resolveu ser original e mostrá-la desmontada, em seu look masculino. Então, o que é drag para você, Milk?

Milk: Drag para mim continua sendo uma descoberta. E algo extremamente temático e contextual que deriva de imaginação e criatividade. E minha saída criativa! Se eu não fosse drag eu ficaria louca. Mas no show, eu sabia que todas as concorrente sairiam com um vestido maravilhoso e cabelo estiloso, e eu me colocava no lugar da audiência e pensava “Isso deve ser super entediante de ver… doze garotas com vestidos e penteados elegantes…”.

Workroom

Glued: Latrice, durante o show você sempre falava sobre seu passado para a audiência (Latrice já foi presa, embora não tenha revelado o motivo). Além disso, você também falou que o suporte de sua comunidade foi muito importante para superar esses momentos. Então, quem era Latrice antes e quem é Latrice agora?

Latrice: Latrice sempre foi muito ativa na sociedade e eu sentia que eu tinha algo para provar ao mundo naquela época. Eu sempre me senti oprimida por causa do meu tamanho e minha raça. Mesmo na comunidade gay eu sempre tive que lidar com preconceito. Independente das dificuldades, sempre lutei para ser uma modelo e mudar a percepção do que ser grande e negro é. Então sempre tive a personalidade de “irmão mais velho”, sempre cuidando e escutando os outros. Nada realmente mudou neste aspecto. Mas depois desta experiência, eu descobri quem meus amigos verdadeiros eram, e pude amadurecer, me tornando mais modesto, e sempre dando importância ao que realmente importava. E agora… aqui estou e tudo é simplesmente maravilhoso.

Glued: Milk, para muitos fãs, você é o homem mais atraente que já passou pelo programa.

Milk: Pare de dar em cima de mim.

Glued: Como isso afetou seu grupo, as Dairy Queens e o seu relacionamento amoroso antes e depois do show? (Milk faz parte de um trio de Drags chamado de Dairy Queens.  Um dos integrantes é James Whiteside, seu namorado).

Milk: Existem muitos escrotos por aí que falavam que só gostavam de mim por causa da minha aparência… gostavam de mim como homem e não curtiam minha forma de drag. E eu falava “ok… desde que sejam meus fãs.” Mas na realidade, nada disso afetou meu relacionamento porque eu e meu namorado já estamos juntos há sete anos. Nosso relacionamento é extremamente forte e seguro. No começo, claro, foi um pouco desconfortável para ele ver algumas mensagens mais “explícitas” de alguns fãs, mas consegui reafirmar nosso compromisso e que eu não estava indo para diferentes cidades para pular a cerca. Meu relacionamento é maravilhoso e ele é minha maior inspiração e quem me introduziu ao mundo de drag. Ele é o meu maior fã e me apoia completamente. E eu amo as “Dairy Queens”.

Dairy-queens-for-show

Glued: Latrice, se você pudesse escolher alguém para a Milk personificar em um Snatch Game, quem seria?

Milk: Menos Julia Child! (risos) Já tentaram isso e não funcionou.

Latrice: Eu não sei… Milk é muito original… na verdade, antes desta viagem não tive a chance de conhecer muito sobre ela, e tem sido um verdadeiro prazer conhecê-la. Eu pessoalmente não sou bom em personificar pessoas, então é extremamente difícil imaginar outra pessoa fazendo o mesmo.

Milk: Eu provavelmente escolheria Adore Delano. E para Latrice, eu escolheria Hilary Clinton. (risos)

Aretha

Glued: Você acaba de lançar um novo programa no YouTube chamado Lactose Intolerant, onde você basicamente mostra o que as pessoas falam sobre você. Como você, Milk, lida com os “haters”?

Milk: Eu sempre leio tudo que escrevem sobre mim… Eu sei que é algo meio egoísta, mas acabo lendo. Eu sempre acho que a maioria dos comentários negativos são cômicos. Eles tem o tempo de ir ao meu site, ou meu instagram ou Facebook e escrever algo negativo. Obviamente eu estou fazendo algo para afetá-los. Eu respeito os que não querem ler coisas negativas, mas para mim, eu acredito que me fortalece porque para cada um desses comentário negativos, eu tenho outros vinte comentários positivos.

Latrice: Eu prefiro não responder ou gastar meu tempo com os comentários negativos. Eu sinto que estou sempre tendo que educar os ignorantes.

Milk: O engraçado é quando alguém faz um “tweet” ignorante e você responde, a pessoa muda de atitude e finge que estava brincando. Por isso eu sinto que as pessoas deixam comentários negativos para ter uma reação. Como por exemplo, se for algo extremamente ofensivo, e eu respondo , a pessoa vira e fica impressionado tipo “Ai meu Deus… recebi uma resposta de uma Queen!”

Glued: E comentários negativos de outras Queens?

Latrice e Milk: Ah! Nem ligamos para isso!

Latrice: É porque elas não são nada para nós. O fato é que estamos em nosso próprio mundo, fazendo dinheiro e, querida, até que você esteja no meu nível, você não tem o que dizer. Nenhum poder aqui!

 

Glued: Uma ultima mensagem para seus fãs?

Milk: Brasil, vocês são os melhores fãs do mundo inteiro e são o máximo! Vocês tem tanta paixão por Drag Race.

Latrice: Sim, muita paixão.

Milk: E eu estou extremamente ansiosa para continuar conhecendo vocês.

Latrice: Com certeza! E não só por Drag Race, mas também pela arte de Drag em geral. Eu já vi performances no Brasil e eles não fenomenais e muito autênticos. Algo que envolve dedicação e muita arte, um verdadeiro show!

 

 

E então, Latrice Royale e Milk Queen se foram. Depois de uma maratona de entrevistas, as rainhas da noite ainda teriam que se preparar para suas performances. A realeza tem seu preço.

Quando sobem ao palco, o público que lota cada centímetro da boate Blue Space vai ao delírio.

Milk cumpre o que promete e promove uma catarse coletiva, literalmente aterrissando no palco usando uma máscara do famoso E.T., do filme de Steven Spielberg. Nada mais apropriado para a Drag que parece viver em outro mundo. Com status de astro do Rock, Milk mergulha e surfa sobre a plateia.

Em frente a multidão, Latrice não é uma pessoa. É uma força! Interpretando Aretha Franklin, nossa Big Girl fica ainda mais imponente. Não há como não ficar arrepiado. Ali, Latrice Royale não dubla – ela louva e agradece.

Para coroar também essas talentosas Queens brasileiras, a festa Priscilla, já consagrada por trazer as participantes de RuPaul’s Drag Race ao Brasil, prepara uma edição especial só com talentos nacionais na próxima sexta-feira, dia 27 de Março. Dragapalooza trará Ikaro Kadoshi, Trio Milano, Alexia Twister, Mariana Mollina, Gloria Groove, As Deendjers e outras performers que prometem mostrar que a cultura Drag é universal e talento não tem nacionalidade.

Já nas edição de Abril, a convidada é Adore Delano, uma das finalistas da sexta temporada – e a Drag que conquistou a melhor colocação no Ranking da Billboard, com seu álbum “Till Death Do Us Party”. Os ingressos para performance do dia 24 de Abril estão esgotados, mas ainda é possível adquirir ingressos para a edição do dia 26 de Abril aqui.

 

Fotos: Bruno Gomes / Felipe Rufino / Jéssica Dalla Torres / Divulgação

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